Quando o calor aperta, a tentação é imediata: ajustar o controle remoto para o mínimo absoluto — 17 °C — e aguardar o ambiente gelar o mais rápido possível. O recurso está ali, disponível no controle remoto de praticamente todos os aparelhos residenciais. Mas disponível não significa recomendável.
Este artigo reúne dados técnicos de órgãos reguladores brasileiros e organismos internacionais para explicar, com precisão, por que operar o ar-condicionado na temperatura mínima é uma prática ineficiente do ponto de vista energético, prejudicial ao equipamento e contrária às normas de saúde vigentes no Brasil.
O mito do resfriamento mais rápido
A crença mais difundida é que configurar o aparelho para 17 °C fará o ambiente esfriar mais rapidamente do que ajustá-lo para, digamos, 23 °C. Essa lógica parece intuitiva, mas está tecnicamente equivocada.
“Um ar-condicionado de 9.000 BTUs irá reduzir a temperatura de 20 m² de ar de 30 °C para 25 °C ou para 17 °C na mesma velocidade — apenas gastando mais ou menos energia.” — TechTudo / ANEEL
O que determina a velocidade de resfriamento é a potência em BTUs do aparelho e sua adequação ao volume do ambiente, não a temperatura selecionada no controle remoto. Um equipamento corretamente dimensionado atingirá qualquer temperatura-alvo no mesmo intervalo de tempo; a diferença está exclusivamente no quanto de energia ele vai consumir para manter esse ponto.
Termodinâmica do consumo: cada grau custa
O princípio físico é direto: quanto maior a diferença entre a temperatura interna desejada e a temperatura externa, mais trabalho o compressor precisa realizar para manter o equilíbrio térmico. Esse esforço adicional se traduz em consumo elétrico maior.
Segundo o engenheiro mecânico da ABRAVA (Associação Brasileira de Refrigeração, Ar-Condicionado e Ventilação), cada grau reduzido no controle remoto representa cerca de 3,5% de aumento no consumo de energia elétrica.
Para ilustrar: se o ambiente externo está a 32 °C e o aparelho é ajustado para 23 °C, a diferença a ser vencida é de 9 °C. Ao ajustar para 17 °C, essa diferença sobe para 15 °C — um incremento de 67% no gradiente térmico, que se reflete diretamente na fatura de energia.
Na prática, isso significa que a cada grau abaixo de 23 °C pode haver incremento de até 7% no gasto energético, conforme análises técnicas do setor (Blog Dufrio, 2025). A diferença entre operar continuamente a 17 °C versus 23 °C pode representar aumento de 40% ou mais na conta de luz do mês.
| Configuração de Temperatura | Impacto no Consumo |
| 23 °C (recomendada pelo INMETRO) | Consumo de referência — 100% |
| 21 °C | Aumento estimado de ~14% |
| 19 °C | Aumento estimado de ~28% |
| 17 °C (mínimo do controle remoto) | Aumento estimado de ~42% ou mais |
Estimativa baseada no índice de 3,5% a 7% por grau reduzido (ABRAVA 2025)
A posição oficial dos órgãos reguladores brasileiros
INMETRO
Em comunicado oficial de fevereiro de 2025, o INMETRO afirmou explicitamente: “Muitas pessoas acreditam que configurar o ar-condicionado para temperaturas muito baixas, como 17 °C, acelera o resfriamento do ambiente. No entanto, essa prática faz o aparelho consumir mais energia ao tentar atingir temperaturas extremas.”
O Instituto recomenda ajustar o termostato para 23 °C como faixa que equilibra conforto térmico e eficiência energética.
ANVISA
A Resolução RE nº 9/2003 da ANVISA (e seu sucessor técnico, a norma ABNT NBR 17037, publicada em julho de 2024) estabelecia que, em ambientes climatizados de uso público e coletivo, a faixa recomendável de temperatura no verão deve variar entre 23 °C e 26 °C. Abaixo desse limite, há risco de desconforto térmico e impactos à saúde dos ocupantes.
Para o inverno, a faixa recomendada fica entre 20 °C e 22 °C — ainda muito acima dos 17 °C habitualmente selecionados por quem deseja “gelar” o ambiente.
NR-17 (Ministério do Trabalho e Emprego)
A Norma Regulamentadora 17, que trata de ergonomia em ambientes de trabalho, determina que em locais onde há exigência intelectual e atenção constante — escritórios, laboratórios, salas de controle — o índice de temperatura efetiva deve ser mantido entre 20 °C e 23 °C. Temperaturas abaixo desse limite violam a norma e podem gerar passivo trabalhista para empregadores.
OMS — Organização Mundial da Saúde
A OMS recomenda a faixa entre 21 °C e 23 °C como temperatura ideal para ambientes internos. Valores abaixo de 20 °C começam a afetar o conforto fisiológico e podem predispor à resequecimento das mucosas respiratórias.
Impactos à saúde de ambientes muito frios
Operar o ar-condicionado a temperaturas extremamente baixas não traz apenas desperdício de energia — cria um ambiente com riscos concretos à saúde.
- Ressecamento das mucosas: temperaturas muito baixas associadas à baixa umidade relativa ressecam as vias respiratórias, tornando-as mais suscetíveis à colonização por vírus, bactérias e fungos.
- Problemas respiratórios: estudos citados pela Secretaria de Saúde do Espírito Santo (SESA) indicam que ambientes climatizados inadequadamente — incluindo temperaturas muito baixas — aumentam a incidência de infecções das vias aéreas superiores.
- Choque térmico ao sair do ambiente: a diferença abrupta entre os 17 °C internos e os 30 °C ou mais do ambiente externo representa um estresse fisiológico considerável, especialmente para idosos, crianças e pessoas com doenças cardiorrespiratórias.
- Redução da produtividade: um estudo da Universidade de Cornell (EUA) demonstrou que temperaturas muito baixas no ambiente de trabalho causam tremores involuntários, dificultam a motricidade fina e reduzem a concentração — efeito oposto ao desejado.
A temperatura ideal para o ser humano é aquela na qual o corpo não precisa acionar mecanismos de aquecimento (tremores, vasoconstrição) nem de resfriamento (sudorese). Essa zona neutra corresponde, para a maioria das pessoas, à faixa entre 22 °C e 26 °C.
Impactos ao equipamento
Além dos efeitos sobre a conta de luz e a saúde, a operação contínua em temperaturas extremas desgasta o aparelho prematuramente.
Compressor em carga máxima: ao tentar atingir e manter 17 °C num ambiente com carga térmica elevada, o compressor opera ininterruptamente, sem os ciclos de folga que normalmente prolongam sua vida útil.
Formação de gelo na evaporadora: temperaturas de operação muito baixas favorecem o congelamento das serpentinas da unidade interna, bloqueando o fluxo de ar e forçando o aparelho a trabalhar ainda mais — um ciclo vicioso que culmina em defeitos e manutenções corretivas.
Custo de manutenção: estudos citados pela ABRAVA indicam que a falta de condições ideais de operação pode elevar o consumo de energia em até 40% e encurtar significativamente a vida útil do equipamento.
Por que o botão de 17 °C existe no ar-condicionado, então?
A presença do ajuste de 17 °C nos controles remotos não implica que essa configuração seja recomendada para uso cotidiano. O recurso atende a situações específicas e excepcionais:
- Ambientes industriais ou de servidor com geração de calor muito intensa, onde a temperatura de conforto humano não é o critério primário;
- Uso temporário (10 a 15 minutos) no modo turbo/jet cool para resfriamento inicial rápido de um ambiente muito quente, com posterior ajuste para 23 °C — 24 °C;
- Ambientes com perfil de ocupação e carga térmica muito diferente do residencial típico.
A nova etiquetagem do INMETRO e a temperatura de teste
Um aspecto técnico relevante: a nova metodologia de classificação energética dos ar-condicionados no Brasil — implementada a partir da Portaria INMETRO nº 234/2020 e com prazo final de adaptação do varejo em junho de 2024 — utiliza o Índice de Desempenho de Refrigeração Sazonal (IDRS), baseado na norma ISO 16358.
Esse índice simula o desempenho do equipamento em quatro condições climáticas distintas ao longo de um ano, com pesos baseados em dados reais de diferentes regiões brasileiras. As temperaturas de referência nos testes situam-se em torno de 29 °C a 35 °C no ambiente externo — muito distantes do cenário criado por quem ajusta o aparelho para 17 °C em um dia de 35 °C, gerando um gradiente de 18 °C que nenhuma etiqueta de eficiência prevê como operação normal.
Em outras palavras: a eficiência energética declarada na etiqueta INMETRO do seu aparelho foi medida em condições de operação que não incluem o uso contínuo a 17 °C.
Recomendações práticas
Com base nas orientações do INMETRO, ANVISA, ABRAVA e OMS, as práticas recomendadas são:
- Ajuste o termostato para 23 °C no verão e entre 20 °C e 22 °C no inverno.
- Se o ambiente estiver muito quente, use o modo turbo por até 15 minutos e depois ajuste para 23 °C — 24 °C.
- Combine o uso do ar-condicionado com ventiladores de teto: permitem elevar a temperatura ajustada em 2 °C — 3 °C sem perda de conforto térmico, reduzindo o consumo em até 20%.
- Mantenha filtros limpos a cada 15 dias no verão; filtros sujos aumentam o consumo.
- Certifique-se de que a potência (BTUs) está corretamente dimensionada para o ambiente — subdimensionamento força o aparelho a operar sempre na carga máxima.
- Feche portas, janelas e cortinas durante o uso para reduzir a carga térmica.
Em resumo
O botão de 17 °C existe nos controles remotos, mas sua existência não é um convite ao uso cotidiano. As evidências técnicas são consensuais e documentadas por INMETRO, ANVISA, Ministério do Trabalho, OMS e especialistas do setor:
- Cada grau abaixo de 23 °C representa aumento de 3,5% a 7% no consumo energético;
- A velocidade de resfriamento depende da potência do aparelho, não da temperatura selecionada;
- Temperaturas abaixo de 22 °C violam as normas brasileiras de saúde e ergonomia para ambientes coletivos;
- O uso prolongado em temperaturas extremas desgasta o compressor e aumenta o risco de defeitos;
- Os impactos à saúde incluem ressecamento das mucosas, problemas respiratórios e redução de produtividade.
A temperatura de 23 °C não é apenas um número arbitrário: é o resultado de décadas de estudos em termodinâmica, fisiologia humana e engenharia de climatização. Respeitá-la é cuidar simultaneamente do seu bolso, do seu equipamento e da sua saúde.



