Tabela completa por BTU e tensão, passo a passo de cálculo com exemplos resolvidos, fatores de correção obrigatórios e os erros que colocam sua instalação em risco — tudo baseado na ABNT NBR 5410:2004.
Por que a bitola do fio é questão de segurança
Quando corrente elétrica circula por um condutor, ela gera calor por efeito Joule: quanto maior a corrente e menor a seção do condutor, maior a temperatura atingida. O isolamento de PVC dos condutores residenciais suporta, em regime contínuo, temperatura máxima de 70°C no condutor. Ultrapassado esse limite, o PVC amolece, perde as propriedades isolantes e começa a carbonizar — criando as condições para curto-circuito e incêndio.
O ar-condicionado exige atenção especial por três razões técnicas que se combinam:
2. Pico de partida: o compressor gera corrente de partida de 3× a 6× a corrente nominal no momento do acionamento — o disjuntor curva C aguenta, mas a fiação subdimensionada não.
3. Circuito exclusivo obrigatório: qualquer outro equipamento no mesmo circuito soma carga à fiação de forma imprevisível.
Segundo o Corpo de Bombeiros de São Paulo, instalações elétricas inadequadas respondem por mais de 35% dos incêndios em edificações residenciais no Brasil. Fios subdimensionados e sem certificação Inmetro são citados como causa primária na maioria desses casos.
O que a ABNT NBR 5410:2004 exige
A NBR 5410 é a norma brasileira que regula instalações elétricas de baixa tensão (até 1.000 V CA). Para ar-condicionado, três exigências são inegociáveis:
Tabela 36 da NBR 5410 — capacidade de corrente
A Tabela 36 é a principal referência para dimensionamento de condutores de cobre com isolação em PVC (70°C). Os valores abaixo são extraídos diretamente da norma, para temperatura ambiente de referência de 30°C:
Métodos de referência (Tabela 33 da NBR 5410)
- B1: condutores isolados (fios) em eletroduto embutido em alvenaria — o método mais comum em residências
- B2: cabo multipolar em eletroduto embutido em alvenaria
- C: cabo multipolar sobre parede ou teto (aparente) — valores mais favoráveis
| Seção (mm²) | B1 — 2 cond. | B1 — 3 cond. | B2 — 2 cond. | B2 — 3 cond. | Aplicação AC |
|---|---|---|---|---|---|
| 1,5 | 17,5 A | 15,5 A | 16,5 A | 15,0 A | Proibido (força) |
| 2,5 | 24,0 A | 21,0 A | 23,0 A | 20,0 A | Padrão até 24.000 BTU |
| 4,0 | 32,0 A | 28,0 A | 30,0 A | 27,0 A | 30.000 – 36.000 BTU |
| 6,0 | 41,0 A | 36,0 A | 38,0 A | 34,0 A | 48.000 – 60.000 BTU |
| 10,0 | 57,0 A | 50,0 A | 52,0 A | 46,0 A | Comercial / industrial |
| 16,0 | 76,0 A | 68,0 A | 69,0 A | 62,0 A | Industrial |
Fonte: ABNT NBR 5410:2004, Tabela 36 — cobre, PVC 70°C, 30°C ambiente. Linhas destacadas = faixas de uso em ar-condicionado residencial.
Tabela 40 — Fator de correção de temperatura
A Tabela 36 foi calculada para temperatura ambiente de 30°C. Quando o eletroduto passa por locais mais quentes — forros, sótãos, ambientes industriais ou ao sol direto — é obrigatório aplicar o fator de correção de temperatura (FCT) da Tabela 40:
| Temp. ambiente | FCT — PVC 70°C | Efeito sobre a capacidade | Situação típica |
|---|---|---|---|
| 25°C | 1,03 | +3% de capacidade | Ambientes climatizados |
| 30°C | 1,00 | Referência da Tabela 36 | Referência padrão |
| 35°C | 0,94 | −6% de capacidade | Forro / telhado comum |
| 40°C | 0,87 | −13% de capacidade | Forro expostos ao sol |
| 45°C | 0,79 | −21% de capacidade | Telhado metálico / galpão |
| 50°C | 0,71 | −29% de capacidade | Ambientes industriais |
| 55°C | 0,61 | −39% de capacidade | Situação extrema |
Como aplicar: divida a corrente de projeto pelo FCT para obter a "corrente equivalente de busca na tabela". Por exemplo: corrente de projeto 12 A, FCT = 0,87 (40°C) → corrente equivalente = 12 ÷ 0,87 = 13,8 A. Use esse valor para consultar a Tabela 36.
Tabela 42 — Fator de agrupamento de circuitos
Quando o eletroduto do ar-condicionado é compartilhado com outros circuitos, os condutores trocam calor entre si, reduzindo a capacidade de dissipação. A Tabela 42 da NBR 5410 determina o fator de agrupamento (FCA):
| Nº de circuitos no eletroduto | FCA | Cap. corrigida — 2,5 mm² B1 | Cap. corrigida — 4,0 mm² B1 |
|---|---|---|---|
| 1 (exclusivo) | 1,00 | 24,0 A | 32,0 A |
| 2 | 0,80 | 19,2 A | 25,6 A |
| 3 | 0,70 | 16,8 A | 22,4 A |
| 4 | 0,65 | 15,6 A | 20,8 A |
| 5 | 0,60 | 14,4 A | 19,2 A |
| 6 | 0,57 | 13,7 A | 18,2 A |
| 7 | 0,54 | 13,0 A | 17,3 A |
| 9 ou mais | 0,50 | 12,0 A | 16,0 A |
Fonte: ABNT NBR 5410:2004, Tabela 42. Cap. corrigida = capacidade da Tab. 36 × FCA.
Passo a passo: como calcular a bitola correta
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1
Encontre a potência elétrica em watts (W)
Este é o dado mais confundido. O ar-condicionado tem duas potências: a capacidade de refrigeração em BTU/h (não serve para cálculo elétrico) e a potência elétrica consumida em watts (a que usamos). Consulte a etiqueta Inmetro, o manual técnico ou o site do fabricante. Nunca estime.
💡Onde encontrar a potência em watts Etiqueta do aparelho (campo "Potência nominal" ou "Input Power") → Manual técnico (ficha técnica) → Site do fabricante (especificações) → Etiqueta Inmetro (campo em W ou kW) -
2
Calcule a corrente nominal (I)
I = P ÷ V I = corrente em A · P = potência em W · V = tensão em V (127 ou 220)Use sempre a tensão real da instalação. Em dúvida, meça com multímetro entre as fases (220V) ou fase e neutro (127V).
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3
Aplique o fator de serviço (×1,25)
Ip = I × 1,25 Ip = corrente de projeto (corrente usada para selecionar o condutor)O fator 1,25 é a margem de segurança que absorve o pico de corrente de partida do compressor e eventuais variações de tensão da rede. É exigência implícita da NBR 5410 para cargas com corrente de partida elevada.
-
4
Aplique os fatores de correção (se necessário)
Se a temperatura ambiente no local do eletroduto for diferente de 30°C (Tab. 40) ou se o eletroduto for compartilhado com outros circuitos (Tab. 42), calcule a corrente equivalente:
I_eq = Ip ÷ (FCT × FCA) Use I_eq para consultar a Tabela 36 quando houver fatores de correção -
5
Consulte a Tabela 36 e escolha a bitola
Identifique o método de instalação (B1 é o mais comum), o número de condutores carregados (geralmente 2 em monofásico: fase + neutro), e selecione a menor bitola cuja capacidade seja maior que a corrente de projeto. Nunca use 1,5 mm² para força.
-
6
Verifique a queda de tensão (obrigatório acima de 20 m)
ΔV% = (2 × 0,0175 × L × I) ÷ (S × V) × 100 ρ = 0,0175 Ω·mm²/m (cobre) · L = distância em m · I = corrente de projeto · S = seção em mm² · V = tensão em VSe ΔV% > 4%, suba uma bitola e recalcule. Para circuitos em 220V, é raro ultrapassar 4% com 2,5 mm² em distâncias menores que 50m e correntes até 15A.
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7
Defina disjuntor e condutor de terra
Disjuntor bipolar curva C com corrente nominal imediatamente acima da corrente de projeto, respeitando o limite: In_disjuntor ≤ Iz_condutor. O condutor de terra (verde/amarelo) deve ter a mesma seção das fases para bitolas até 16 mm².
Tabela definitiva: bitola por BTU e tensão
Tabela de referência rápida construída com os valores médios de potência elétrica de modelos inverter do mercado brasileiro, aplicando a metodologia da NBR 5410 (B1, circuito exclusivo, 30°C, sem agrupamento). Consulte sempre o manual do seu aparelho para a potência elétrica exata.
| Capacidade | Tensão | Pot. típica | I nominal | I projeto (×1,25) | Bitola | Disjuntor | Terra |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 9.000 BTU | 127 V | ~900 W | 7,1 A | 8,9 A | 2,5 mm² | 16 A-C | 2,5 mm² |
| 9.000 BTU | 220 V | ~860 W | 3,9 A | 4,9 A | 2,5 mm² | 10 A-C | 2,5 mm² |
| 12.000 BTU | 127 V | ~1.200 W | 9,4 A | 11,8 A | 2,5 mm² | 20 A-C | 2,5 mm² |
| 12.000 BTU | 220 V | ~1.085 W | 4,9 A | 6,2 A | 2,5 mm² | 16 A-C | 2,5 mm² |
| 18.000 BTU | 220 V | ~1.720 W | 7,8 A | 9,8 A | 2,5 mm² | 20 A-C | 2,5 mm² |
| 24.000 BTU | 220 V | ~2.200 W | 10,0 A | 12,5 A | 2,5 mm² | 20 A-C | 2,5 mm² |
| 30.000 BTU | 220 V | ~2.800 W | 12,7 A | 15,9 A | 4,0 mm² | 25 A-C | 4,0 mm² |
| 36.000 BTU | 220 V | ~3.300 W | 15,0 A | 18,8 A | 4,0 mm² | 25 A-C | 4,0 mm² |
| 48.000 BTU | 220 V | ~4.200 W | 19,1 A | 23,9 A | 6,0 mm² | 32 A-C | 6,0 mm² |
| 60.000 BTU | 220 V | ~5.200 W | 23,6 A | 29,5 A | 6,0 mm² | 40 A-C | 6,0 mm² |
Valores calculados para método B1, eletroduto exclusivo, 30°C ambiente, sem agrupamento. Disjuntor bipolar curva C. Potências baseadas em modelos inverter do mercado. Verifique sempre a ficha técnica do aparelho.
Exemplos de dimensionamento resolvidos
Três casos práticos com parâmetros reais, do mais simples ao mais complexo:
Exemplo B a 45m: (2 × 0,0175 × 45 × 12,5) ÷ (2,5 × 220) × 100 = 19,69 ÷ 550 × 100 = 3,58% — dentro do limite, mas margem mínima.
Disjuntor correto e condutor de terra
Por que bipolar e curva C?
Bipolar: o ar-condicionado opera em 220V (fase + fase) ou 127V (fase + neutro). O disjuntor bipolar protege ambos os condutores simultaneamente — um disjuntor unipolar deixa um polo desprotegido.
Curva C: a curva C suporta picos de corrente de 5× a 10× In durante 0,1 s sem disparar — tempo suficiente para a corrente de partida do compressor dissipar. A curva B (usada em iluminação) dispara a partir de 3× a 5× In e pode desligar o aparelho toda vez que o compressor partir.
| Bitola do condutor | Capacidade máxima (Tab.36 B1) | Disjuntor máximo permitido | Disjuntor recomendado para AC |
|---|---|---|---|
| 2,5 mm² | 24 A (2 cond.) | Até 25 A-C | 16 A-C ou 20 A-C (bipolar) |
| 4,0 mm² | 32 A (2 cond.) | Até 32 A-C | 25 A-C (bipolar) |
| 6,0 mm² | 41 A (2 cond.) | Até 40 A-C | 32 A-C ou 40 A-C (bipolar) |
Seção mínima do condutor de proteção (terra)
| Seção das fases (mm²) | Seção mínima do terra (NBR 5410) |
|---|---|
| ≤ 16 mm² | Igual à fase |
| 16 a 35 mm² | 16 mm² |
| > 35 mm² | Metade da fase |
Para ar-condicionado residencial (2,5 mm² e 4,0 mm²), o fio terra deve sempre ter a mesma seção que os condutores de fase.
Tipos de cabo e quando usar cada um
| Tipo | Classe | Flexibilidade | Uso indicado | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Fio rígido (sólido) | Classe 1 | Rígido | Embutido em alvenaria via eletroduto | Mais barato, difícil de curvar em ângulos fechados |
| Fio flexível | Classe 5 | Flexível | Eletrodutos com muitas curvas, painéis | Mais fácil de instalar, levemente mais caro |
| Cabo PP bipolar/tripolar | Classe 5 | Muito flexível | Trechos expostos, externos, umidade | Dupla isolação em PVC, resistente a UV e umidade |
| Cabo HEPR (borracha) | Classe 5 | Muito flexível | Ambientes industriais, calor extremo | Suporta 90°C no condutor — mais capacidade de corrente |
Os 7 erros mais comuns — e por que cada um é perigoso
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1
Usar fio 1,5 mm² porque "a corrente cabe"
A Tabela 47 da NBR 5410 proíbe seção inferior a 2,5 mm² em circuitos de força. Mesmo que 1,5 mm² tecnicamente suporte a corrente calculada, a norma veda essa prática — e o seguro pode não cobrir sinistros em instalações irregulares.
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2
Conectar dois aparelhos no mesmo circuito
A soma das correntes pode ultrapassar a capacidade do condutor sem disparar o disjuntor imediatamente — o superaquecimento é lento, progressivo e silencioso, até o isolamento ceder.
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3
Ignorar a queda de tensão em distâncias longas
Uma queda de tensão acima de 4% reduz a eficiência do compressor, aumenta a corrente consumida (para compensar a menor tensão) e causa calor adicional na fiação — um ciclo vicioso que acelera a degradação.
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4
Usar disjuntor curva B ou unipolar
O disjuntor curva B dispara entre 3× e 5× a corrente nominal, o que é insuficiente para absorver o pico de partida do compressor. Resultado: o ar-condicionado "derruba o disjuntor" ao ligar — ou, pior, o disjuntor desgastado para de disparar quando deveria.
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5
Omitir o condutor de proteção (terra)
O fio terra é a proteção primária contra choque elétrico em caso de falha no isolamento do aparelho. Sua ausência é infração à NBR 5410 e risco direto de acidente fatal.
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6
Não corrigir para temperatura do forro
Em cidades do Nordeste e Centro-Oeste, o forro pode atingir 50°C–55°C. Um fio 2,5 mm² com FCT 0,71 (50°C) tem capacidade corrigida de apenas 17 A — suficiente para a maioria dos splits, mas sem margem alguma para variações.
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7
Usar cabo sem certificação Inmetro
Cabos não certificados frequentemente têm seção real menor que a nominal. Um "2,5 mm²" não certificado pode ter apenas 1,8 mm² de cobre — abaixo até do mínimo normativo de 2,5 mm² e com risco real de superaquecimento.
Conclusão: a regra de ouro da instalação elétrica de ar-condicionado
De 30.000 a 36.000 BTU em 220V: fio 4,0 mm², disjuntor bipolar 25A curva C, terra 4,0 mm².
Acima de 36.000 BTU ou distâncias > 40 m: calcule caso a caso com a metodologia completa deste guia.
O dimensionamento correto da bitola de fio para ar-condicionado não é complicado quando se conhece a metodologia da NBR 5410. Calcula-se a corrente, aplica-se o fator 1,25, verificam-se os fatores de correção obrigatórios, consulta-se a Tabela 36 e verifica-se a queda de tensão. Em mais de 80% das instalações residenciais brasileiras com aparelhos até 24.000 BTU em 220V, o resultado será 2,5 mm² — mas o processo de verificação é o que garante que esse número é correto para aquela instalação específica, não apenas uma suposição.
A diferença de custo entre fio 2,5 mm² e 4,0 mm² em uma instalação típica é de R$ 20 a R$ 50. A diferença entre uma instalação segura e uma que pode causar incêndio não tem preço.
