Prédio antigo tem paredes sem infraestrutura, elétrica subdimensionada e regras de condomínio que complicam a vida de quem quer instalar um split. Este guia resolve cada um desses problemas — com a lei do lado do morador.
A elétrica do prédio antigo: o maior obstáculo
Apartamentos com mais de 30 anos não foram projetados para suportar ar-condicionado. A maioria foi construída numa época em que geladeira, televisão e um ferro de passar eram os únicos eletrodomésticos de peso. Hoje, um split de 12.000 BTUs consome entre 8 e 12A — uma carga que a instalação elétrica original simplesmente não previu.
Fiação de alumínio
Prédios anteriores à década de 1990 frequentemente usavam fio de alumínio, que tem maior resistência elétrica, esquenta mais, oxida com facilidade e é proibido para instalações residenciais novas. Um split ligado nessa fiação pode provocar aquecimento dos condutores e risco de incêndio. Solução: substituição total do trecho por cabo de cobre.
Sem circuito exclusivo
A NBR 5410 e a NBR 16401 exigem que o ar-condicionado tenha circuito exclusivo saindo direto do quadro de distribuição — com disjuntor e cabo dimensionados para a corrente do aparelho. Em prédios antigos, o quadro de energia geralmente não tem espaço nem capacidade para mais um circuito.
Quadro saturado ou subdimensionado
Quando vários moradores instalam split ao mesmo tempo, o transformador do prédio e a rede elétrica predial podem entrar em colapso. Prédios antigos com um único transformador partilhado podem não suportar a carga se muitos apartamentos instalarem ACs simultaneamente.
Ausência de aterramento
A maioria dos aparelhos split modernos exige aterramento (fio terra) para proteger a placa eletrônica e o usuário. Prédios antigos frequentemente não possuem fio terra nas tomadas — e ligar um inverter sem aterramento pode danificar a placa eletrônica permanentemente, além de criar risco de choque.
🔴 O que fazer primeiro: Antes de comprar o aparelho, chame um eletricista habilitado para avaliar o quadro de distribuição do apartamento. Ele verificará se há espaço para novo disjuntor, qual a bitola dos cabos existentes, se há aterramento e se a rede elétrica predial suporta a carga. Esse laudo evita surpresas caras depois da compra.
| Capacidade do split | Potência elétrica típica (inverter) | Corrente nominal (220V) | Ib × 1,25 (NBR 5410) | Bitola mín. do cabo | Disjuntor (curva C) |
|---|---|---|---|---|---|
| ❄️ 9.000 BTU | ~700–900 W | ~3,5–4,5 A | ~4,4–5,6 A | 2,5 mm² | C10A exclusivo |
| ❄️ 12.000 BTU | ~1.100–1.350 W | ~5,5–6,5 A | ~6,9–8,1 A | 2,5 mm² | C10A ou C16A exclusivo |
| ❄️ 18.000 BTU | ~1.600–1.900 W | ~7,5–9,0 A | ~9,4–11,3 A | 2,5 mm² | C16A exclusivo |
| ❄️ 24.000 BTU | ~2.100–2.500 W | ~10–12 A | ~12,5–15 A | 4,0 mm² | C16A ou C20A exclusivo |
📐 Como a NBR 5410 manda calcular: A corrente de projeto é a corrente nominal do aparelho (da placa, em amperes) multiplicada pelo fator de serviço 1,25 — margem que garante que o disjuntor não desarme durante o funcionamento normal. O disjuntor escolhido deve ter In imediatamente superior a esse valor (Ib ≤ In ≤ Iz), ser curva C (suporta o pico de partida do compressor), bipolar para 220V e exclusivo para o aparelho. Atenção: use sempre a potência elétrica em watts da placa do aparelho, nunca converta BTU para watts para fins elétricos.
Passagem da tubulação: paredes que não cooperam
O split precisa de um furo na parede para passar os três elementos de interligação entre a evaporadora (interna) e a condensadora (externa): tubulação de cobre do fluido refrigerante, cabo elétrico de sinal e mangueira de dreno. Em prédios antigos, esse furo pode ser um grande problema.
Alvenaria estrutural — cuidado redobrado
Em prédios de alvenaria estrutural (onde as paredes são a estrutura do edifício), qualquer furo deve ser feito com extremo cuidado — evitando blocos que fazem parte do cálculo estrutural. Furos em pilares, vigas ou lajes são proibidos. O ideal é passar a tubulação embutida no forro de gesso ou em canaleta aparente pela face interna da parede.
Paredes com tijolos maciços antigos
Prédios construídos antes dos anos 80 frequentemente usam tijolos maciços muito duros, que exigem brocas de diamante para a perfuração. A espessura da parede também pode ser muito maior que nos imóveis modernos — o que complica a angulação correta do furo (deve ter inclinação para o dreno escoar para fora).
Alternativa: canaleta PVC aparente
Quando não é possível embutir a tubulação na parede, a canaleta PVC aparente (calha plástica parafusada na parede) é a solução mais comum em prédios antigos. Protege os tubos, pode ser pintada na cor da parede e não exige quebramento. Esteticamente aceitável e tecnicamente correta.
Solução pelo forro de gesso
Se o apartamento possui forro de gesso, a tubulação pode ser passada dentro do espaço entre o forro e a laje, sem qualquer quebra de parede. É a solução mais limpa e discreta para prédios antigos com pé-direito suficiente.
⚠️ Proibido em qualquer situação: furar ou enfraquecer pilares, vigas, lajes ou elementos estruturais para passagem de tubulação. Isso configura dano à estrutura do edifício, podendo gerar responsabilidade civil e criminal ao morador, conforme o Código Civil art. 1.336.
Condomínio pode proibir? Entenda seus direitos
Este é o ponto que mais gera conflito — e a resposta é clara: o condomínio não pode proibir totalmente a instalação de ar-condicionado, mas pode regulamentá-la. Entenda o que a lei diz.
O condomínio não pode proibir — mas pode regulamentar
O artigo 1.336 do Código Civil proíbe que o condômino altere a fachada do prédio sem aprovação. Mas não proíbe instalar ar-condicionado. A questão é onde a condensadora vai ficar: se na fachada frontal, precisará de aprovação de assembleia. Se na sacada ou área técnica interna, em geral não há restrição.
A instalação é considerada uma reforma — comunique o síndico
A NBR 16280 estabelece que qualquer intervenção no imóvel dentro de condomínio deve ser comunicada ao síndico com um plano de reforma. A instalação do split — especialmente se envolver furos, passagem de tubulação e alteração elétrica — se enquadra nessa norma. Apresente a documentação técnica (ART ou TRT) para se proteger.
Alterações de fachada exigem 2/3 dos condôminos
Se a condensadora precisar ficar na fachada frontal ou em área que altere a estética do prédio, a aprovação exige quórum de 2/3 das frações ideais dos condôminos em assembleia. Para instalação na sacada ou área de serviço, que não altera a fachada, geralmente não é necessária aprovação coletiva — mas consulte a convenção do seu condomínio.
A norma específica para instalação de splits residenciais
A NBR 16655:2018 regula os requisitos mínimos de projeto e instalação dos suportes de fixação dos aparelhos externos de ar-condicionado split residencial até 18 kW (60.000 BTU/h). Ela define as especificações técnicas dos suportes — e o instalador deve segui-la para garantir a segurança da condensadora fixada na fachada.
Exija o documento de responsabilidade técnica do instalador
Para instalações residenciais até 60.000 BTU/h, o instalador deve emitir o TRT (Termo de Responsabilidade Técnica). Para sistemas maiores ou que envolvam obras estruturais e elétricas significativas, é necessária a ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) junto ao CREA ou o RRT junto ao CAU. Esses documentos protegem o morador em caso de problemas.
A recomendação dos especialistas para prédios antigos
Em vez de brigar com a proibição, a orientação de advogados e engenheiros é reunir os moradores com assessoria técnica especializada para projetar um padrão coletivo — definindo onde as condensadoras vão ficar, como a fiação vai ser passada e como o dreno será encaminhado. Prédios que desenvolvem esse padrão evitam conflitos, valorizam o imóvel e garantem a segurança de todos.
O dreno de condensado: o problema do vizinho de baixo
O ar-condicionado remove umidade do ar — e essa água precisa ir para algum lugar. Em prédios novos, há pontos de dreno previstos no projeto. Em prédios antigos, o dreno é improvisado e frequentemente termina escorrendo pela fachada ou pingando na sacada do andar de baixo.
Encaminhar para o esgoto (melhor solução)
A solução mais correta é encaminhar a mangueira de dreno para um ralo do banheiro ou área de serviço. Exige uma tubulação mais longa, mas elimina completamente o gotejamento externo. Em prédios antigos sem infraestrutura, essa tubulação pode ser aparente em canaleta PVC.
Bomba de dreno (para distâncias grandes)
Quando a condensadora fica do lado oposto ao ponto de escoamento, a bomba de dreno resolve — ela bombeia a água da condensação para cima ou para longe, vencendo distâncias que a gravidade não consegue. Muito usada em instalações de prédios antigos com layout difícil.
Dreno seco (evaporador integrado)
Modelos com função dreno seco evaporam a água de condensado internamente usando o calor da condensadora. Ideal para prédios antigos onde não há opção de dreno convencional. Não goteja absolutamente nada — e elimina os conflitos com o vizinho de baixo.
Regras municipais sobre gotejamento
Algumas prefeituras têm legislação específica proibindo o gotejamento de condensados em calçadas e passagens públicas. Além da questão de convivência com vizinhos, o gotejamento em áreas comuns pode gerar notificação do condomínio e multa ao condômino responsável.
O passo a passo correto para instalar split em prédio antigo
Verifique a capacidade elétrica do apartamento
Chame um eletricista para avaliar: capacidade do quadro de distribuição, bitola dos cabos existentes, presença de aterramento e disponibilidade para novo circuito exclusivo. Se o quadro estiver saturado ou a fiação for de alumínio, reserve orçamento para a adequação elétrica antes de comprar o split.
Consulte a convenção do condomínio e comunique o síndico
Verifique na convenção se há regras sobre local da condensadora, padrão estético e aprovações necessárias. Comunique o síndico por escrito (e-mail ou carta) com o plano da instalação, conforme exige a NBR 16280. Se precisar de assembleia, convoque antes de iniciar qualquer obra.
Defina o local da evaporadora, condensadora e o trajeto da tubulação
Escolha o posicionamento considerando: menor distância entre as unidades (máx. 15 m em modelos residenciais, exceto inverter de longa distância), trajeto com menor quebra possível de parede, local da condensadora com boa ventilação (mínimo 30 cm de espaço livre), e ponto de escoamento do dreno. Documentar o plano ajuda na aprovação do condomínio.
Execute o circuito exclusivo antes da instalação do split
O eletricista instala o novo circuito partindo do quadro de distribuição: disjuntor exclusivo + cabo de cobre na bitola correta + fio terra. Se necessário, troca o quadro ou adiciona sub-quadro. Essa etapa deve ter TRT ou ART do profissional responsável.
Fure a parede, passe a tubulação e fixe o suporte
O técnico faz o furo com inclinação correta (descendo para o exterior, para o dreno escoar). Passa a tubulação de cobre, o cabo de sinal e a mangueira de dreno. A abertura é vedada com espuma expansiva para evitar entrada de água e ar. O suporte da condensadora é fixado na parede com buchas expansoras adequadas ao peso do aparelho.
Conexão do fluido refrigerante e vácuo no sistema
Após fixar as unidades, o técnico conecta a tubulação de cobre com flanges e faz o vácuo do sistema com bomba específica — etapa obrigatória que remove umidade e ar do circuito antes de abrir as válvulas do fluido refrigerante. Sem vácuo, o compressor terá vida útil reduzida. Ao final, testa o funcionamento e emite o TRT.
✅ Conclusão: Instalar split em prédio antigo é completamente possível — mas exige planejamento maior que numa construção nova. A elétrica quase sempre precisa de adequação, a passagem da tubulação exige avaliação estrutural, o condomínio precisa ser comunicado e o dreno precisa de destino correto. Com um eletricista habilitado, um técnico de climatização certificado e a documentação em ordem, você resolve todos os quatro desafios com segurança, dentro da lei e sem briga com o síndico.



