A resposta não é simples. É uma combinação de seis fatores que se acumularam ao longo de décadas: história, arquitetura, custo de energia, ideologia ambiental, burocracia e biologia. Vamos a cada um deles.
O calor era exceção. Agora virou regra. E a Europa não se adaptou ainda.
Durante séculos, o grande problema climático da Europa era o frio — não o calor. Invernos rigorosos matavam. Primaveras frias destruíam colheitas. O continente inteiro foi construído, cultural e fisicamente, para se proteger do inverno.
Ondas de calor extremas sempre existiram, mas eram raras e curtas. Não justificavam o investimento em um sistema de refrigeração caro para usar poucas semanas por ano. “Na Europa simplesmente não temos a tradição do ar-condicionado, porque até relativamente pouco tempo atrás ele não era uma necessidade importante”, explicou Brian Motherway, chefe do Escritório de Eficiência Energética da Agência Internacional de Energia.
Nos últimos anos, temperaturas acima de 40°C deixaram de ser exceção em países como França, Alemanha e Reino Unido. O calor que antes durava 3 dias agora dura 3 semanas. Mas a Europa ainda está funcionando com o sistema mental — e físico — do século XIX.
A arquitetura foi projetada para reter calor — não para dissipar calor
Visite qualquer cidade europeia histórica e observe as construções: paredes de pedra com 60 cm de espessura, janelas pequenas, sótãos com isolamento pesado. Tudo foi desenhado para uma única função: manter o calor do inverno dentro de casa.
No verão, essas mesmas casas se tornam fornos. As paredes grossas acumulam calor durante o dia e o liberam à noite, quando o morador mais precisa dormir. As janelas pequenas impedem a ventilação. O isolamento que salvava vidas no inverno sufoca no verão.
Prédios medievais
Muitas residências britânicas datam de antes de 1900. Uma em cada seis casas na Inglaterra tem mais de 125 anos.
Tombamento histórico
Autoridades britânicas rejeitam pedidos de instalação de ar-condicionado alegando impacto visual em áreas de preservação e patrimônio histórico.
Reforma impossível
Adaptar sistemas de refrigeração central em prédios centenários é tecnicamente complexo e financeiramente proibitivo.
Uma exceção interessante são os países do sul da Europa. Espanha, Grécia e sul da Itália construíram suas casas com outro objetivo: paredes espessas que isolam do calor, janelas voltadas para a sombra, pátios internos que criam circulação de ar. Não à toa, esses são os países com maior taxa de adoção de ar-condicionado na Europa — Grécia lidera com 70%.
Quem tem — e quem não tem — ar-condicionado na Europa
| País | % de casas com AC | Contexto |
|---|---|---|
| 🇺🇸 Estados Unidos | Referência mundial | |
| 🇬🇷 Grécia | Líder europeia — calor histórico | |
| 🇮🇹 Itália | Dobrou desde 2005 (era 20,9%) | |
| 🇪🇸 Espanha | Sul mais quente puxa o número | |
| 🌍 Europa (média) | 80% ainda sem AC | |
| 🇵🇹 Portugal | Crescimento acelerado | |
| 🇬🇧 Reino Unido | Menos de 1 em 20 casas | |
| 🇩🇪 Alemanha | Quase inexistente residencialmente | |
| 🇧🇷 Brasil | Mas crescendo rapidamente |
Energia elétrica na Europa custa o dobro — ou o triplo — do Brasil
Muitos brasileiros imaginam que, se a Alemanha é rica, os alemães podem pagar qualquer conta de luz. Mas não é bem assim. O custo da energia elétrica na Europa é estruturalmente muito mais alto do que no Brasil ou nos EUA — por causa da dependência histórica de importações de gás e petróleo, além de pesadas tributações ambientais.
Um alemão paga em torno de 3 a 4 vezes mais por quilowatt-hora do que um americano. Manter um ar-condicionado ligado por semanas pode literalmente dobrar a conta de luz de uma família. Para os grupos de menor renda — que são muitos na Europa — isso simplesmente não é viável.
Isso explica por que a Grécia — um dos países mais pobres da Europa — tem a maior taxa de ar-condicionado: lá o calor é tão extremo e histórico que a população simplesmente não teve escolha. Faz décadas que 38°C em julho é normal em Atenas.
O paradoxo verde: o ar-condicionado foi transformado em inimigo do clima
A Europa é o continente mais comprometido com metas climáticas no mundo. O Acordo de Paris nasceu aqui. A meta de neutralidade de carbono até 2050 é levada a sério — pelo menos no discurso político. E o ar-condicionado virou símbolo de tudo que essa agenda quer evitar.
Os motivos são legítimos. Aparelhos de refrigeração consomem enormes quantidades de energia. Na Europa, onde grande parte dessa energia ainda vem de combustíveis fósseis, ligar o ar-condicionado é literalmente queimar gás ou carvão. Além disso, os aparelhos expelem calor para o ambiente externo — o que piora o efeito de ilha de calor urbana, aquecendo ainda mais as ruas.
O uso massivo de ar-condicionado pode intensificar o chamado efeito de ilha de calor urbana. As áreas urbanas ficam cada vez mais quentes — e aí precisamos de mais ar-condicionado. É um círculo vicioso.
— Pesquisadores citados no estudo publicado em Nature Climate Change
Esse raciocínio criou uma cultura em que o ar-condicionado é visto, em partes da Europa, como um símbolo de excesso americano — consumista, egoísta, prejudicial ao planeta. Usar ventilador, persianas, e “aguentar o calor” virou quase uma virtude cívica em algumas sociedades do norte europeu.
A crise climática, ironicamente, está abalando esse consenso. Quando 61 mil pessoas morrem de calor num único verão europeu, fica difícil manter a posição ideológica contra a refrigeração.
A burocracia que literalmente proíbe instalar ar-condicionado
Mesmo quem quer e pode pagar por um ar-condicionado na Europa frequentemente esbarra em obstáculos burocráticos que simplesmente não existem no Brasil.
No Reino Unido, por exemplo, as autoridades locais rejeitam regularmente pedidos de instalação com base em questões visuais: a unidade condensadora externa (aquela caixa que fica do lado de fora) é considerada “impacto negativo na paisagem” em bairros históricos ou tombados. Richard Salmon, diretor de uma empresa britânica especializada em ar-condicionado, relatou que pedidos são barrados rotineiramente “em áreas de conservação ou em edifícios tombados”.
Patrimônio histórico
Em cidades como Oxford, Bath e Edimburgo, a aparência externa dos imóveis é protegida por lei. Qualquer alteração — incluindo instalar uma unidade de AC — exige aprovação municipal.
Condomínios restritivos
Em muitos prédios europeus, a decisão de instalar ar-condicionado precisa da aprovação de todos os condôminos — o que torna o processo quase impossível.
Processos lentos
Mesmo quando a instalação é permitida, o processo burocrático pode levar meses — tempo demais quando o verão já começou e você está sufocando agora.
O corpo europeu simplesmente não está aclimatado ao calor
Aqui entra um fator biológico que os brasileiros — especialmente os nordestinos — intuem, mas raramente verbalizam: aclimatação.
O corpo humano é incrivelmente adaptável. Uma pessoa que cresceu em Fortaleza, onde o calor é constante, desenvolve desde criança mecanismos fisiológicos de adaptação: maior eficiência na transpiração, melhor regulação circulatória, tolerância mais alta ao estresse térmico. Esses mecanismos não surgem da noite para o dia — levam anos de exposição gradual para se desenvolverem.
Um britânico que vive em Londres — onde a temperatura média de verão gira em torno de 20°C — não desenvolveu esses mecanismos. Quando uma onda de calor traz 38°C repentinos, seu corpo enfrenta um choque que o corpo de um nordestino jamais sentiria com essa intensidade.
Isso não significa que europeus são “mais fracos”. Significa que seu corpo e sua infraestrutura foram calibrados para um clima que está rapidamente deixando de existir.
Está mudando? Sim — e mais rápido do que se imagina
A soma de ondas de calor cada vez mais letais e uma população que finalmente perdeu a paciência está quebrando décadas de resistência cultural e política ao ar-condicionado na Europa.
Os dados confirmam essa virada. Na Itália, a taxa de adoção saltou de 20,9% em 2005 para 53,5% em 2025 — mais que dobrou em vinte anos. No Reino Unido, uma empresa de ar-condicionado relatou que as consultas residenciais mais que triplicaram nos últimos cinco anos. Na Suíça, as vendas de aparelhos portáteis triplicaram em um único mês de junho.
A Agência Internacional de Energia projeta que o número de unidades de ar-condicionado na União Europeia chegará a 275 milhões até 2050 — mais que o dobro do registrado em 2019. Em todo o mundo, mais de 55% das casas terão ar-condicionado até 2050.
“Nossas casas precisam ser resilientes não apenas ao frio, mas também ao calor cada vez mais intenso.”
— Yetunde Abdul, diretora do UK Green Building Council
O desafio agora é encontrar um caminho que não piore o problema: como refrigerar 275 milhões de unidades sem triplicar o consumo de energia fóssil? A aposta europeia está nos sistemas de refrigeração a energia solar, nas bombas de calor de alta eficiência e em normas de construção que tornem os novos edifícios naturalmente mais frescos.
O que as pessoas mais perguntam sobre esse tema
A resposta em uma frase
A Europa não tem ar-condicionado não porque é pobre — mas porque foi construída, cultural, arquitetônica e biologicamente, para um clima que as mudanças climáticas já tornaram história. E agora está pagando um preço alto por não ter se adaptado a tempo.



