O “C” é a curva de disparo magnético instantâneo
O “C” estampado num disjuntor indica sua curva de disparo magnético — o parâmetro que define em que múltiplo da corrente nominal o dispositivo dispara instantaneamente (em menos de 0,1 segundo) para proteger o circuito contra curtos-circuitos. A curva C significa que o disparo instantâneo ocorre quando a corrente atinge entre 5× e 10× a corrente nominal do disjuntor. Num disjuntor C20, isso equivale a disparo entre 100A e 200A. É a curva mais comum em instalações residenciais e comerciais gerais no Brasil, padronizada pela ABNT NBR NM 60898.
Os dois mecanismos de proteção — e por que a curva define apenas um
Um disjuntor termomagnético protege contra dois fenômenos distintos, usando dois mecanismos independentes. A letra da curva (B, C ou D) se refere exclusivamente ao segundo:
Proteção térmica (sobrecarga)
Exemplo: disjuntor C20 com corrente de 22 A (10% acima) pode levar vários minutos para disparar. Com 40 A (2×In) dispara em poucos minutos. É a proteção contra sobrecargas graduais.
Proteção magnética (curto-circuito)
Curva C: dispara instantaneamente quando
I ≥ 5 × In e obrigatoriamente antes de I = 10 × In (faixa segundo a ABNT NBR NM 60898). Tolera picos de partida moderados sem disparar, mas reage rapidamente a curtos-circuitos severos.
O que é uma “curva” de disjuntor — visualizando o comportamento
O termo “curva” vem de como o comportamento do disjuntor é representado graficamente: num gráfico de tempo de disparo × múltiplo da corrente nominal, o comportamento do disjuntor forma uma linha (curva) descendente — quanto maior a corrente, menor o tempo para disparar. A letra B, C ou D indica onde no eixo horizontal (múltiplo de In) o salto para o disparo instantâneo acontece.
📐 Como ler o gráfico: o eixo vertical é o tempo — quanto mais alto, mais demorado o disparo. O eixo horizontal é o múltiplo da corrente nominal. A curva B entra na zona instantânea (disparo < 0,1s) mais cedo (a partir de 3×In); a curva C, mais ao centro (5–10×In); e a curva D, mais tarde (10–20×In). Quanto mais à direita o ponto de disparo instantâneo, mais o disjuntor tolera picos de corrente antes de disparar.
Curvas B, C e D: o que cada uma significa e quando usar
Indicada para:
- Cargas puramente resistivas — fornos elétricos, lâmpadas incandescentes
- Equipamentos eletrônicos sensíveis
- Cabos longos com baixa impedância de curto
- Circuitos onde qualquer surto deve ser cortado rapidamente
Indicada para:
- Uso geral residencial e comercial
- Ar-condicionado, geladeira, lavadora de roupas
- Pequenos motores com pico de partida moderado
- Iluminação geral e tomadas de uso geral
- Maioria das instalações da NBR 5410
Indicada para:
- Motores grandes com alto pico de partida
- Transformadores e soldadoras
- Equipamentos com corrente de inrush muito alta
- Compressores industriais na partida direta
⚠️ Por que a série começa em B e não em A? A Murrelektronik documenta a razão: a classificação começa no B para evitar confusão entre uma possível “curva A” e a unidade de medida de corrente elétrica “A” (ampere). Se existisse uma curva A, um disjuntor poderia ter “A20” estampado — o que criaria ambiguidade entre “curva A, 20A nominal” e “20A”. Iniciando em B, o problema é eliminado. Existem curvas mais sensíveis que B (como a curva Z, usada por ABB para eletrônicos muito sensíveis), mas o padrão da ABNT NBR NM 60898 para instalações residenciais e comerciais prevê oficialmente apenas B, C e D.
Tabela comparativa — B, C e D lado a lado
| Parâmetro | Curva B | Curva C | Curva D |
|---|---|---|---|
| Faixa de disparo instantâneo | 3 a 5 × In | 5 a 10 × In | 10 a 20 × In |
| Sensibilidade ao pico | Alta — dispara cedo | Média — equilíbrio | Baixa — tolera picos |
| Proteção térmica (sobrecarga) | Igual em todas | Igual em todas | Igual em todas |
| Cargas resistivas (forno, lâmpada) | ✓ Ideal | ✓ Adequado | △ Desnecessário |
| Uso geral residencial e comercial | △ Pode disparar na partida | ✓ Ideal — mais comum no Brasil | △ Proteção excessivamente tardia |
| Ar-condicionado e geladeira | △ Risco de disparo na partida | ✓ Correto | △ Desnecessário |
| Motores industriais / Transformadores | ✗ Dispara prematuramente | △ Pode disparar na partida de motores grandes | ✓ Ideal — tolera inrush |
| Eletrônicos sensíveis | ✓ Ideal | ✓ Adequado | ✗ Proteção tardia demais |
| Norma de referência no Brasil | ABNT NBR NM 60898 / IEC 60898-1 | ||
Um disjuntor C20 na prática — o que dispara e o que não dispara
Disjuntor C20 (Curva C · 20A nominal)
Faixa de disparo instantâneo: 100A a 200A · Faixa de sobrecarga térmica: acima de 20A por tempo prolongado
In = 20 A | Disparo instantâneo: 5×In a 10×In = 100 A a 200 A
Corrente de 22 A (uso normal + pequena sobrecarga): bimetálico aquece lentamente → disparo térmico em minutos
Corrente de 60 A (partida de motor pequeno): abaixo de 100 A → não dispara instantaneamente — tolerado
Corrente de 150 A (curto-circuito real): dentro de 100–200 A → disparo instantâneo em < 0,1 s ✓
Corrente de 250 A (curto severo): acima de 200 A → disparo instantâneo garantido ✓
O C20 tolera a partida de um motor pequeno (corrente de 60 A por frações de segundo) sem disparar — protegendo o motor de falsos desligamentos. Mas reage imediatamente a qualquer curto-circuito real. É exatamente esse equilíbrio que torna a curva C a mais usada em instalações residenciais e comerciais no Brasil.
Curva C e ar-condicionado: por que é sempre a escolha certa
O compressor de um ar-condicionado — especialmente modelos convencionais on/off — tem uma corrente de partida (inrush) que pode ser de 3 a 6 vezes a corrente nominal de operação, por frações de segundo. Num ar-condicionado de 12.000 BTU com corrente nominal de 6,5 A em 220V, a corrente de partida pode atingir 20–40 A por menos de 1 segundo.
Com curva B (disparo a partir de 3×In), um disjuntor B16 dispararia a partir de 48 A — poderia ser acionado a cada partida do compressor, causando desligamentos frequentes e sem necessidade. Com curva C (disparo a partir de 5×In), um disjuntor C16 só dispara acima de 80 A — tolera o pico de partida do compressor com folga e ainda protege contra curtos reais. Com curva D (disparo a partir de 10×In), o disjuntor toleraria até 160 A antes de disparar instantaneamente — proteção tardia demais para uma instalação residencial.
✅ A regra prática para ar-condicionado: disjuntor exclusivo, curva C, dimensionado conforme a corrente nominal do aparelho (informada na plaqueta) com margem de 125% conforme NBR 5410. Exemplo: ar-condicionado de 12.000 BTU com 6,5 A nominal → disjuntor C10 ou C16 exclusivo. Nunca usar curva B para aparelhos com compressor — o pico de partida vai causar desligamentos indevidos.
Perguntas frequentes
O “C” indica que o disparo magnético instantâneo ocorre entre 5× e 10× a corrente nominal. Um C20 dispara instantaneamente entre 100 A e 200 A. Norma: ABNT NBR NM 60898.
Uso geral residencial e comercial: iluminação, tomadas, ar-condicionado, geladeira, lavadora. É a curva padrão no Brasil — equilibra tolerância a picos de partida com proteção eficaz contra curtos.
A curva (B/C/D) e a capacidade de ruptura (kA) são parâmetros independentes. A curva define quando dispara; o kA define quanto aguenta ao disparar. Ambos precisam estar corretos.



